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domingo, 9 de setembro de 2007

Teologia do Cotidiano

(Um livro maravilhoso de Rubem Alves)

1.Sobre os heróis
O Betinho é humano e conhecido demais para que seja pranteado como um deus.

No nosso mundo não existe mais lugar para os heróis solitários. As máquinas, as instituições, as organizações, os partidos – tudo é grande demais. Ali os indivíduos desaparecem. Ficam sem rosto. São substituíveis. Mesmo os heróis do futebol: se jogam mal, ficam de fora...

O herói é o símbolo do nosso eterno desejo de sermos belos, puros e valentes. Que todos nos vejam!

2. Sobre a liberdade
Meus filhos, a existência é boa só quando é livre. A liberdade é a lei.


3.A barbie
Os meninos, proibidos de ter bonecas, se abraçam aos seus ursinhos de pelúcia. E nós, adultos, proibidos de ter bonecas e de ter ursinhos de pelúcia, nos abraçamos ao travesseiro... Os objetos são diferentes, mas o seu sentido é o mesmo: o desejo de aconchego e de ternura.

Essa é a primeira lição que a inofensiva boneca de plástico ensina. Ensina a horrível fala do eu tenho, você não tens. A maldição das comparações. A maldição da inveja.


4.Alegria
Não, eu não quero prazer! Eu quero alegria! Era isso o que dizia uma das amantes de Tomás, o médico de A Insustentável Leveza do Ser. E Tomás ficava perdido porque prazer ele sabia dar, é coisa de receita fácil, mora no corpo. Mas alegria é coisa mais sutil, mora na alma, no lugar das fantasias e da saudade.

Deus é aquele que é, mesmo quando não existe.


5.Prazer
Foi Deus que fez este festival de possibilidades de prazer.

Acho o prazer uma coisa divina. Para ele fomos feitos. O amor, o humor, a comida, a música, o brinquedo, a caminhada, a viagem, a vadiagem, a preguiça, a cama, o banho de cachoeira, o jardim – para estas coisas fomos feitos. Para isso trabalhamos e lutamos: para que o mundo seja um lugar de delícias. Pois esse, somente esse, é o sentido do Paraíso: o lugar onde o corpo experimenta o prazer.

6.O telefone
Alguns cientistas têm estado a debater se telefone celular causa ou não câncer. Como estão equivocados! A verdade é o oposto. É o câncer que produz o telefone celular. Telefone celular é uma doença, evidência de perturbação mental. Pois só pode ser louco quem quer carregar um chato a tiracolo.


7.Dr. Simão Bacamarte
E é por isso que vivo aconselhando todo mundo a ler poesia, pois só assim nos salvaremos da nossa banal e chata normalidade...


8.Idéias loucas
Quem pensa idéias loucas não é louco.

O que faz um louco não é a loucura da idéia. É a força da idéia.

O louco tem idéias fortes. O não-louco tem idéia fracas


9. Hora de esquecer
Somos o que lembramos

A memória é a presença da eternidade em mim.

O esquecimento é a memória vomitando o que faz o corpo sofrer.

Quem fica com os olhos fixados no passado se torna incapaz de ver o presente. E quem não tem olhos para o presente está morto


10. Preferiram morrer
Até mesmo se diz que a esperança é a última que morre. Mas o mais certo seria dizer: a penúltima. Porque a sua morte é o prenúncio da última morte, a morte daquele que conclui que não há mais razões para viver. Quando morrem as razões para viver, entram em cena as razões para morrer.
No mundo da riqueza, toda criança deve ser destruída a fim de ser transformada numa unidade de produção econômica. E é para isto que são mandadas às escolas.


11. Seguindo a canção
Mas a fome de um povo não se mata com arroz e feijão. Não só de pão viverão os homens e as mulheres... Um povo precisa comer beleza pra querer viver. Povo, para existir, há de se sentir bonito. Há de ter sonhos, dizia Santo Agostinho. Há de marchar com a banda, dizia o Chico. Há de seguir a canção, dizia o Vandré. É isso que o povo pede de nós, dizia o poeta Tagore, uma canção...


12. Sobre rezas
Pois lá está dito que Deus é espírito, vento impetuoso que sopra em todo lugar, o mesmo vento que ele soprou dentro da gente para que respirássemos, fôssemos leves e pudéssemos voar. Quem está no vento não pode estar firme. Firmes são as pedras, as tartarugas, as âncoras. Você já viu um papagaio firme? Papagaio firme é papagaio no chão, não voa. Pois eu estou mais é como urubu, lá nas alturas, flutuando ao sabor do imprevisível Vento Sagrado, sem firmeza alguma, rodando em largos círculos.

Não acredito em oração em que a gente fala e Deus escuta. Acredito mesmo é na oração em que a gente fica quieto para ouvir a voz que se faz ouvir no meio do silêncio.


13. O Galo
Deus não muda o seu jeito de ser, por causa do nosso jeito de ser.


14. O paraíso
Quem, dentro de si mesmo, um Paraíso não for capaz de encontrar, não será capaz também de, um dia, nele entrar...


15. Deus existe
E assim, me atrevendo a usar a ontologia de Riobaldo, eu posso dizer que Deus tem de existir. Tem Beleza demais no universo, e Beleza não pode ser perdida. E Deus é esse Vazio sem fim, gamela infinita, que pelo universo vai colhendo e ajuntando toda a Beleza que há, garantindo que nada se perderá, dizendo que tudo o que se amou e se perdeu haverá de voltar, se repetirá de novo. Deus existe para tranqüilizar a saudade.

Posso então responder à pergunta que me fizeram. É claro que acredito em Deus, do jeito como acredito nas cores do crepúsculo, do jeito como acre dito no perfume da murta, do jeito como acredito na beleza da sonata, do jeito como acredito na alegria da criança que brinca, do jeito como acredito na beleza do olhar que me contempla em silêncio. Tudo tão frágil, tão inexistente, mas me faz chorar. E se me faz chorar, é sagrado. É um pedaço de Deus... Dizia o poeta Valéry: Que seria de nós sem o socorro daquilo que não existe?

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Um comentário:

Cesar Cruz disse...

Terologia do cotidiano! Adorei este texto do R. Alves, não conhecia... Aliás, coincidentemente vc postou este texto no dia do meu aniv do ano passado: 9 de set!

Abraços e parabéns pelo blog!
Cesar