Be Good

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domingo, 9 de setembro de 2007

Teologia do Cotidiano

(Um livro maravilhoso de Rubem Alves)

1.Sobre os heróis
O Betinho é humano e conhecido demais para que seja pranteado como um deus.

No nosso mundo não existe mais lugar para os heróis solitários. As máquinas, as instituições, as organizações, os partidos – tudo é grande demais. Ali os indivíduos desaparecem. Ficam sem rosto. São substituíveis. Mesmo os heróis do futebol: se jogam mal, ficam de fora...

O herói é o símbolo do nosso eterno desejo de sermos belos, puros e valentes. Que todos nos vejam!

2. Sobre a liberdade
Meus filhos, a existência é boa só quando é livre. A liberdade é a lei.


3.A barbie
Os meninos, proibidos de ter bonecas, se abraçam aos seus ursinhos de pelúcia. E nós, adultos, proibidos de ter bonecas e de ter ursinhos de pelúcia, nos abraçamos ao travesseiro... Os objetos são diferentes, mas o seu sentido é o mesmo: o desejo de aconchego e de ternura.

Essa é a primeira lição que a inofensiva boneca de plástico ensina. Ensina a horrível fala do eu tenho, você não tens. A maldição das comparações. A maldição da inveja.


4.Alegria
Não, eu não quero prazer! Eu quero alegria! Era isso o que dizia uma das amantes de Tomás, o médico de A Insustentável Leveza do Ser. E Tomás ficava perdido porque prazer ele sabia dar, é coisa de receita fácil, mora no corpo. Mas alegria é coisa mais sutil, mora na alma, no lugar das fantasias e da saudade.

Deus é aquele que é, mesmo quando não existe.


5.Prazer
Foi Deus que fez este festival de possibilidades de prazer.

Acho o prazer uma coisa divina. Para ele fomos feitos. O amor, o humor, a comida, a música, o brinquedo, a caminhada, a viagem, a vadiagem, a preguiça, a cama, o banho de cachoeira, o jardim – para estas coisas fomos feitos. Para isso trabalhamos e lutamos: para que o mundo seja um lugar de delícias. Pois esse, somente esse, é o sentido do Paraíso: o lugar onde o corpo experimenta o prazer.

6.O telefone
Alguns cientistas têm estado a debater se telefone celular causa ou não câncer. Como estão equivocados! A verdade é o oposto. É o câncer que produz o telefone celular. Telefone celular é uma doença, evidência de perturbação mental. Pois só pode ser louco quem quer carregar um chato a tiracolo.


7.Dr. Simão Bacamarte
E é por isso que vivo aconselhando todo mundo a ler poesia, pois só assim nos salvaremos da nossa banal e chata normalidade...


8.Idéias loucas
Quem pensa idéias loucas não é louco.

O que faz um louco não é a loucura da idéia. É a força da idéia.

O louco tem idéias fortes. O não-louco tem idéia fracas


9. Hora de esquecer
Somos o que lembramos

A memória é a presença da eternidade em mim.

O esquecimento é a memória vomitando o que faz o corpo sofrer.

Quem fica com os olhos fixados no passado se torna incapaz de ver o presente. E quem não tem olhos para o presente está morto


10. Preferiram morrer
Até mesmo se diz que a esperança é a última que morre. Mas o mais certo seria dizer: a penúltima. Porque a sua morte é o prenúncio da última morte, a morte daquele que conclui que não há mais razões para viver. Quando morrem as razões para viver, entram em cena as razões para morrer.
No mundo da riqueza, toda criança deve ser destruída a fim de ser transformada numa unidade de produção econômica. E é para isto que são mandadas às escolas.


11. Seguindo a canção
Mas a fome de um povo não se mata com arroz e feijão. Não só de pão viverão os homens e as mulheres... Um povo precisa comer beleza pra querer viver. Povo, para existir, há de se sentir bonito. Há de ter sonhos, dizia Santo Agostinho. Há de marchar com a banda, dizia o Chico. Há de seguir a canção, dizia o Vandré. É isso que o povo pede de nós, dizia o poeta Tagore, uma canção...


12. Sobre rezas
Pois lá está dito que Deus é espírito, vento impetuoso que sopra em todo lugar, o mesmo vento que ele soprou dentro da gente para que respirássemos, fôssemos leves e pudéssemos voar. Quem está no vento não pode estar firme. Firmes são as pedras, as tartarugas, as âncoras. Você já viu um papagaio firme? Papagaio firme é papagaio no chão, não voa. Pois eu estou mais é como urubu, lá nas alturas, flutuando ao sabor do imprevisível Vento Sagrado, sem firmeza alguma, rodando em largos círculos.

Não acredito em oração em que a gente fala e Deus escuta. Acredito mesmo é na oração em que a gente fica quieto para ouvir a voz que se faz ouvir no meio do silêncio.


13. O Galo
Deus não muda o seu jeito de ser, por causa do nosso jeito de ser.


14. O paraíso
Quem, dentro de si mesmo, um Paraíso não for capaz de encontrar, não será capaz também de, um dia, nele entrar...


15. Deus existe
E assim, me atrevendo a usar a ontologia de Riobaldo, eu posso dizer que Deus tem de existir. Tem Beleza demais no universo, e Beleza não pode ser perdida. E Deus é esse Vazio sem fim, gamela infinita, que pelo universo vai colhendo e ajuntando toda a Beleza que há, garantindo que nada se perderá, dizendo que tudo o que se amou e se perdeu haverá de voltar, se repetirá de novo. Deus existe para tranqüilizar a saudade.

Posso então responder à pergunta que me fizeram. É claro que acredito em Deus, do jeito como acredito nas cores do crepúsculo, do jeito como acre dito no perfume da murta, do jeito como acredito na beleza da sonata, do jeito como acredito na alegria da criança que brinca, do jeito como acredito na beleza do olhar que me contempla em silêncio. Tudo tão frágil, tão inexistente, mas me faz chorar. E se me faz chorar, é sagrado. É um pedaço de Deus... Dizia o poeta Valéry: Que seria de nós sem o socorro daquilo que não existe?

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quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Sou os arredores...

Fernando Pessoa – Livro do Desassossego.

“Sou os arredores de uma vila que não há, o comentário prolixo a um livro que se não escreveu. Não sou ninguém, ninguém. Não sei sentir, não sei pensar, não sei querer. Sou uma página de romance por escrever, passando aérea e desfeita sem ter sido, entre os sonhos de quem me não soube contemplar”.

Quem me salvará ?

Fernando Pessoa em O Liuro do Desassossego.

"Ah, quem me salvará de existir? Não é a morte que quero, nem a vida; é aquela outra coisa que brilha no fundo da ânsia, como um diamente possível numa cova a que se não pode descer...É toda a falta de um Deus verdadeiro que é o cadáver vácuo do céu alto e da alma fechada. Cárcere infinito - porque és infinito, não se pode fugir de ti!"

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segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Convivência Teológica

John Wesley
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"No essencial, unidade; no não essencial, liberdade; em tudo, caridade."
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A PARÁBOLA DA MENTE ESTREITA

“Histórias que Abrem a Janela Mais Ampla de Deus”, DeVern Fromke, Edições Tesouro Aberto
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Certo dia, ao atravessar uma ponte, vi um homem em pé na beirada a ponto de pular. Corri, então, em sua direção, e disse-lhe: “Pare! Não faça isso!”
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“E por que eu não deveria?”, perguntou ele.
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Eu disse: “Bem, há tanto pelo que se viver!”.
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Ele disse: “Como o quê?”
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Eu disse: “Bem, você é religioso ou ateu?”
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Ele disse: “Religioso”.
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Eu disse: “Eu também. Você é católico ou protestante?”
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Ele disse: “Protestante”.
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Eu disse: “Eu também! Você é episcopal ou batista?”
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Ele disse: “Batista”.
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Eu disse: “Puxa! Eu também! Você é da Igreja Batista de Deus ou da Igreja Batista do Senhor?”
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Ele disse: “Igreja Batista de Deus”.
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Eu disse: “Eu também! Você é da Igreja Batista de Deus Original ou da Igreja Batista de Deus Reformada?”
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Ele disse: “Igreja Batista de Deus Reformada”.
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Eu disse: “Eu também! Você é da Igreja Batista de Deus Reformada em 1879 ou da Igreja Batista de Deus Reformada em 1915?”
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Ele disse: “Igreja Batista de Deus Reformada em 1915!”
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Eu disse: “Então morra, seu herege!”, e, com imenso desgosto, o empurrei.
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sexta-feira, 3 de agosto de 2007

COMPLEXIDADE ÍNTIMA

Paulo de Tarso na Carta aos Romanos.

“Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte? ”. (7:24).

“Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero isso não faço, mas o que aborreço isso faço.“ (7:15).

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RAÍZES

Mia Couto.

Uma vez um homem deitou-se, todo, em cima da terra. A areia lhe servia de almofada. Dormiu toda a manhã e quando se tentou levantar não conseguiu. Queria mexer a cabeça e não foi capaz. Chamou pela mulher e pediu-lhe ajuda.

- Veja o que me está a prender a cabeça.

A mulher espreitou por baixo da nuca do marido, puxou-lhe levemente pela testa. Em vão. O homem não desgrudava do chão

.- Então, mulher? Estou amarrado?

- Não, marido, você criou raízes.

- Raízes?

Já se juntavam as vizinhanças. E cada um puxava sentença. O homem, aborrecido, ordenou à esposa:

- Corta!

- Corta, o quê?

A esposa puxou da faca e lançou o primeiro golpe. Mas logo parou.

- Dói-lhe?

- Quase nem. Por que me pergunta?

- É porque está sair sangue.

Já ela, desistida, arrumara o facão. Ele, esgotado, pediu que alguém o destroncasse dali. Me ajudem, suplicou. Juntaram uns tantos, gentes da terra. Aquilo era assunto para camponês. Começaram a escavar o chão, em volta. Mas as raízes que saíam da cabeça desciam mais fundo que se podia imaginar. Covaram o tamanho de um homem e elas continuavam para o fundo. Escavaram mais que as fundações de uma montanha e não se vislumbrava o fim das radiculações.

- Me tire daqui, gemia o homem, já noite.

Revesaram-se os homens, cada um com sua pá mais uma enxada. Retiraram toneladas do chão, vazaram a fundura de um buraco que nunca ninguém vira. E laborou-se semanas e meses. Mas as raízes não só não se extinguiam como se ramificavam em mais redes e novas radículas. Até que já um alguém, sabedor de planetas disse:

- As raízes dessa cabeça dão a volta ao mundo.

E desistiram. Um por um se retiraram. A mulher, dia seguinte chamou os sábios. Que iria ela fazer para desprender o homem da inteira terra? Pode-se tirar toda a terra, sacudir as remanescentes areias, disse um. Mas um outro argumentou: assim teríamos que transmudar o planeta inteiro, acumular um monte de terra do tamanho da terra. E o enraizado, o que que se faria dele e de todas as raízes? Até que falou o mais velho e disse:

- A cabeça dele tem que ser transferida.

E para onde, santos deuses? Se entreolharam todos, aguardando pelo parecer do mais velho.

- Vamos plantar a cabeça dele lá.

E apontou para cima, para as celestiais alturas. Os outros devolveram a estranheza. Que queria o velho dizer?

- Lá, na lua.

E foi assim que, por estréia, um homem passou a andar com a cabeça na lua. Nesse dia nasceu o primeiro poeta.

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quinta-feira, 2 de agosto de 2007

A MAIOR SOLIDÃO

Vinicius de Moraes

“...a maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, eu se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, e que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro. O maior solitário é que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e de ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes da emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto da sua fria e desolada torre”.

SE EU FOSSE UM PADRE

Mário Quintana

Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
- muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,

não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições...

Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,
Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!

Porque a poesia purifica a alma
... a um belo poema - ainda que de Deus se aparte -
um belo poema sempre leva a Deus!

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quarta-feira, 1 de agosto de 2007

A Oração ao Deus Desconhecido

Friedrich Nietzche

Antes de prosseguir em meu caminho
e lançar o meu olhar para frente uma vez mais,
elevo, só, minhas mãos a Ti na direção de quem eu fujo.

A Ti, das profundezas de meu coração,
tenho dedicado altares festivos para que, em
Cada momento, Tua voz me pudesse chamar.

Sobre esses altares estão gravadas em fogo estas palavras:
“Ao Deus desconhecido”.

Seu, sou eu, embora até o presente tenha me associado aos sacrílegos.
Seu, sou eu, não obstante os laços que me puxam para o abismo.
Mesmo querendo fugir, sinto-me forçado a servi-lo.

Eu quero Te conhecer, desconhecido.
Tu, que me penetras a alma e, qual turbilhão, invades a minha vida.
Tu, o incompreensível, mas meu semelhante,
quero Te conhecer, quero servir só a Ti.

terça-feira, 31 de julho de 2007

Victor Hugo em "Os Miseráveis".

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Nunca devemos ter medo de ladrões ou assassinos. São perigos externos e os menores que existem.

Temamos a nós mesmos.

Os preconceitos é que são os ladrões; os vícios é que são os assassinos. Os grandes perigos estão dentro de nós. Que importância tem aquele que ameaça a nossa vida ou a nossa fortuna? Preocupemo-nos com o que põe em perigo a nossa alma.


terça-feira, 24 de julho de 2007

No lar de crianças pobres de Calcutá, na Índia há um texto afixado no muro que afirma o seguinte:

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As pessoas são irracionais, ilógicas e egocêntricas.
Ame-as mesmo assim!

Se você têm sucesso nas sua realizações, ganhará falsos amigos e verdadeiros inimigos.
Tenha sucesso mesmo assim!

O bem que você faz será esquecido amanhã.
Faça o bem mesmo assim!

A honestidade e a franqueza o tornam vulnerável.
Seja honesto e franco mesmo assim!

Aquilo que você levou anos para construir pode ser destruído de um dia para outro.
Construa mesmo assim!

Os pobres têm verdadeiramente necessidade de ajuda, mas alguns podem atacá-lo se você ajudar.
Ajude-os mesmo assim!

Se você der ao mundo o melhor de si mesmo, você corre o risco de se machucar.
Dê o que você tem de melhor...Mesmo assim!

quarta-feira, 18 de julho de 2007

TRAGÉDIA.

Mário Quintana. Gaúcho de Porto Alegre.

A nossa vida nunca chega ao fim. Isto é, nunca termina no fim.

É como se alguém estivesse lendo um romance e achasse o enredo enfadonho e, interrompendo, com um bocejo, a leitura, fechasse o livro e o guardasse na estante. E deixasse o herói, os comparsas, as ações, os gestos, tudo ali, esperando, esperando...

Como naquele jogo a que chamavam brincar de estátua.

Como num filme que parou de súbito.

Um esboço do mundo.

Jorge Luis Borges - aos 67 anos de idade

Um homem se propõe a tarefa de esboçar o mundo. Ao longo dos anos povoa um espaço com imagens de províncias, de reinos, de montanhas, de baías, de naves, de ilhas, de peixes, de habitações, de instrumentos, de astros, de cavalos e de pessoas.

Pouco antes de morrer, descobre que esse paciente labirinto de linhas traça a imagem do seu rosto.

ACOSTUMAR-SE

Marina Colasanti

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e não ver vista que não sejam as janelas ao redor. E porque não tem vista logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma e não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, se esquece do sol, se esquece do ar, esquece da amplidão.

A gente se acostuma a acordar sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder tempo. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E não aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: “hoje não posso ir”. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisa tanto ser visto.A gente se acostuma a pagar por tudo o que se deseja e necessita. E a lutar para ganhar com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar nas ruas e ver cartazes. A abrir as revistas e ler artigos. A ligar a televisão e assistir comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição, às salas fechadas de ar condicionado e ao cheiro de cigarros. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam à luz natural. Às bactérias de água potável. À contaminação da água do mar. À morte lenta dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinhos, a não ter galo de madrugada, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta por perto.

A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta lá.Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua o resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem muito sono atrasado.

A gente se acostuma a não falar na aspereza para preservar a pele. Se acostuma para evitar sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.

A gente se acostuma para poupar a vida.

Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma.


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Perseverança.

Victor Hugo em "Os Trabalhadores do Mar" - tradução de Machado de Assis - Editora Nova Alexandria.


Quem ama quer, e aquele que quer relampeja e cintila. A resolução enche os olhos de fogo; admirável fogo que se compõe da combustão de pensamentos tímidos.

Os teimosos são os sublimes. Quem é apenas bravo tem um assomo, que é apenas valente tem só um temperamento, quem é apenas corajoso tem só uma virtude; o obstinado na verdade tem a grandeza. Quase todo o segredo dos grandes corações está nesta palavra: perseverando.

A perservança está para a coragem como a roda para a alavanca; é a renovação perpétua do ponto de apoio. Esteja na terra ou no céu o alvo da vontade, a questão é ir a esse alvo; no primeiro caso, é Colombo, no segundo caso, é Jesus.

Insensata é a cruz; vem daí a sua glória. Não deixar discutir a consciência, nem desarmar a vontade, é assim que obtêm o sofrimento e o triunfo. Na ordem dos fatos morais o cair não exclui o pairar. Da queda sai a ascensão.

Os medíocres deixam-se perder pelo obstáculo especioso; não são assim os fortes. Perecer é o talvez dos fortes, conquistar é a certeza deles. Podes dar a Estevão todas as boas razões para que ele não se faça apedrejar. O desdém das objeções razoáveis cria a sublime vitória vencida que se chama o martírio.

Victor Hugo em "Os Trabalhadores do Mar" - tradução de Machado de Assis - Editora Nova Alexandria.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

A Rua dos Cataventos

(Mário Quintana)

Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arracar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

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quarta-feira, 13 de junho de 2007

Memória

Carlos Drummond

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

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terça-feira, 12 de junho de 2007

A Pipoca

Rubem Alves

"(...)

A pipoca é um milho mirrado, sub-desenvolvido. Fosse eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos graúdos aparecessem aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar delas. Pois o fato é que, sob o ponto de vista de tamanho, os milhos da pipoca não podem competir com os milhos normais. Não sei como isso aconteceu, mas o fato é que houve alguém que teve a idéia de debulhar as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, esperando que assim os grãos amolecessem e pudessem ser comidos. Havendo fracassado a experiência com água, tentou a gordura. O que aconteceu, ninguém jamais poderia ter imaginado. Repentinamente os grãos começaram a estourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira. Mas o extraordinário era o que acontecia com eles: os grãos duros quebra-dentes se transformavam em flores brancas e macias que até as crianças podiam comer. O estouro das pipocas se transformou, então, de uma simples operação culinária, em uma festa, brincadeira, molecagem, para os risos de todos, especialmente as crianças. É muito divertido ver o estouro das pipocas!

(... )

Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo. Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre. Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser. Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão - sofrimentos cujas causas ignoramos. Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.

Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: pum! - e ela aparece como uma outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante.

(...)

Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os piruás com os paulistas descobri que eles ignoram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era gozação minha, que piruá é palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a me valer do Aurélio para confirmar o meu conhecimento da língua. Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar. Meu amigo William, extraordinário professor-pesquisador da UNICAMP, especializou-se em milhos, e desvendou cientificamente o assombro do estouro da pipoca. Com certeza ele tem uma explicação científica para os piruás. Mas, no mundo da poesia as explicações científicas não valem. Por exemplo: em Minas ‘piruá’ é o nome que se dá às mulheres que não conseguiram casar. Minha prima, passada dos quarenta, lamentava: ‘Fiquei piruá!’ Mas acho que o poder metafórico dos piruás é muito maior. Piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem. Ignoram o dito de Jesus: ‘Quem preservar a sua vida perde-la-á.’ A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo da panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo."

Tô na panela há um ano... e não quero virar piruá.

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Ensaiando a Loucura - como controlar a eternidade.

(Não sei quem é o autor)

Invente um mundo onde a realidade já não flua mais. Imagine-se num autismo existencial e acredite nele. Lese seu senso de realidade. Cerceie as liberdades. Interrompa os processos.

Simplifique, reduza e resuma. Estanque toda dinâmica. Bloqueie os fluxos. Engesse os movimentos. Fixe e congele a existência. Aplaque as pulsões de eternidade.Não implique, não complique, não explique, não se aplique. Simplifique.

Não mergulhe. Permaneça boiando.

Se, para conformar, for preciso deformar, o faça. Informar ou transformar, jamais. Finja que a morte não existe. Negue seus medos. Subestime a decomposição de toda matéria.

Ignore a complexidade da verdade. Sintetize tudo em dogmas. Seja indiferente com as dúvidas. Despreze as indagações. Demonstre apatia e descaso diante das incertezas. Nunca reconheça sua ignorância. Jamais dialogue. Diante de divergências, simplifique: dê as costas ou um murro na mesa. Arrebente (no seu mundo, você tudo pode).


Acredite que pode manipular o outro. Fale muito e nunca ouça. Restrinja. Limite. Domine. Submeta. Subjugue

Não perca tempo com as realidades complexas como o sorriso de uma criança, o canto dos pássaros, o pôr do sol, a lágrima do ancião, a fome do semelhante. Não preste atenção ao mistério de sua própria respiração. Não dê lugar à perplexidade diante do imponderável. Foque sua atenção nas coisas simples como o dinheiro e o reconhecimento social. Acumule riquezas. Busque fama e elogios. Construa monumentos. Acredite no que se vê. Confie nas formas e aparências. Lute por resultados visíveis, cifras e estatísticas. A fé exigiria muito de você. Iluda-se com suas impressões de posteridade. Dê vazão às suas vaidades.

Ter hábitos previdentes em relação à saúde, também é muito complexo. Simplifique: coma tudo que tiver vontade e zombe dos que se preocupam com educação alimentar. Condicionamento físico também exige muita elaboração. Prefira a simplicidade de horas à frente da televisão. Aliás, entre de cabeça na tecnologia e não dê vazão à sensibilidade, algo tão complexo.

Evite relacionamentos pessoais, já que requerem tempo e paciência. Reduza tudo aos contatos funcionais e hierárquicos. Evite afetividades e comunhões. Invista nas estratégias de massificação, seja para se esconder na massa, seja para dominá-la. Resista na trincheira dos preconceitos. Superar discriminações demandaria custosas transformações pessoais. Não lide com o caos humano.

Acredite que você pode enjaular os monstros interiores seus e dos outros. Não confronte o caos resultante de sua mortalidade. Não leve em conta a tragédia interior do próximo.

Não ligue para a consciência. Minimize tudo ao cumprimento de algumas normas, mas não todas. Somente aquelas, em relação às quais, você consegue aparentar obediência. Amordace seus pensamentos ocultos. Seja indiferente aos seus sentimentos maus. Disfarce seus instintos. Crie personagens. Vista todas as fantasias. Com toda imaginação, invente seus próprios cenários. Fraude quem você é e acredite em quem você pensa ser. Oculte as intenções. Simule identidades. Não preste atenção a frustrações e angústias. Mantenha-se indiferente diante das inquietudes da alma. Camufle e disfarce.

Crie muitas leis. Confie nos rituais. Não busque diretamente a transcendência. Atenha-se à simplicidade dos ídolos e dos altares. Escolha o mais fácil e não o melhor. Institucionalize a espiritualidade.

Intoxicado pelas doses de ironia, se não puder evitar, vomite. Mas faça-o no seu travesseiro. Tenha ali seus pesadelos secretamente. Nunca demonstre suas náuseas em público. Nunca confesse suas fraquezas.

Institua seus diques de ironia junto à fonte.

Pronto! As águas jamais fluirão. Você controlou a eternidade.

Parabéns. Você é seu próprio deus neste seu mundo imaginário.

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segunda-feira, 11 de junho de 2007

Meus 38 Anos

Gosto de meus aniversários.

Não pela festa.

Não sou muito chegado à festas de aniversário pra mim.

Normalmente tento escapar. Não falo a respeito, finjo que esqueci, desconverso, marco compromissos “inadiáveis”, mas pelo menos um jantar com minha esposa, pais e irmãos acaba acontecendo.

O que gosto em meus aniversários é algo que comecei a fazer aos 28 anos.

É um segredinho que hoje, 10 anos depois da primeira vez, decidi tornar público.

No dia do meu aniversário eu separo um tempinho e faço uma lista com o nome das pessoas que de alguma maneira me ajudaram, me inspiraram, me deram força... ou seja, pessoas importantes pra mim... pessoas que desde que consigo me lembrar, de alguma forma me ajudaram a construir quem eu sou hoje. São amigos, parentes, colegas, professores, alunos, conhecidos e até gente que nem me conhece, mas que de algum modo tocou de forma significativa na minha vida.

Gente que com uma história, uma palavra, um gesto ou um olhar me ajudou a ser um pouco melhor...

Depois de fazer a lista, em segredo faço uma oração e agradeço a Deus por todos eles, por suas vidas, pelos ensinamentos e ainda peço a Deus que acompanhe cada um deles. Leio os nomes diversas vezes e me lembro de como cada um foi ou é importante para mim e peço a presença e a benção de Deus na vida deles.

Este ano resolvi fazer diferente.

Não pretendo divulgar esta a lista.

Pretendo pedir menos...

Por todo o resto de minha vida, quero me aproximar de quem ainda posso... chegar mais pertinho e, sem fazer barulho, quero ser para estas pessoas tudo aquilo que sempre pedi a Deus que lhes enviasse.

Este ano a oração vai ser bem diferente:“Senhor, me ajuda a ser uma benção na vida dessas pessoas a quem eu tanto devo. Em nome de Jesus, Amém”

São Paulo, 12 de Maio de 2007.