quinta-feira, 3 de abril de 2008

CADEIA CÍCLICA

(escrevi em 1997)


É essa noite que me envolve que me assusta.

É esse medo incontrolável que me cala.

É esse silêncio inexorável que me imobiliza.

É essa inércia irracional que a tudo escurece.

É essa noite que me envolve que me assusta.



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(sem nome)

(escrevi em 1995)


Meu desejo lírico

Teu beijo clínico

Meu protesto tímido

Teu retorno áspero

Meu pedido último

Teu carinho bélico

Meu silêncio úmido


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INVENTÁRIO

(escrito em 1994)

Ilusões antigas,
Um coração quebrado,
Sobras de esquecimentos,
Vontades e quereres,
Um monte te quases...

Canções incompletas,
UM velho desejo,
Segredos incontáveis,
Fantasias, planos...
E Planos...

Muitas esperanças,
Algumas alegrias,
Uma pequena saudade,
Poucos amores,
Outro monte de quases...

Vazios imensos,
Pedaços de sonhos,
Decepções variadas,
Poucos inimigos
E nenhum...
Nenhum amigo de verdade...


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quarta-feira, 26 de março de 2008

MEDO DE NUVEM E VENTO

(baseado em Mário Quintana)

Medo de nuvem
Medo de vento
Medo do mundo
Medo do medo

Medo da nuvem
Que vai se abrindo
Qque não se sabe
O que vai saindo

Medo do vento
Que vai soprando
Que não se sabe
O que vai dizendo

Medo do gesto mudo
Medo da fala surda
Que vai movendo
Que vai dizendo
Que não se sabe
Que bem se sabe
Que tudo é nuvem
Que tudo é vento


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(sem nome)

(escrito em 1993)



Meia hora

inteira passa

fazendo do passado feito.



Já não há respiro,

só sobrou um tiro

que soprou no ar.



Só precisou o dedo,

não há mais defeito,

nem porque falar.


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Sentidos

(escrito em 1997)


abre os olhos e ouça,

lmpa os ouvidos e sente,

lava as mãos e cheira,

respira fundo e vê

o que o amor faz aos sentidos...


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Sem Fim ?

(escrito em 1993)



Abre os olhos.

Vê o que restou ?



Canta tua sorte

Sem um tempo de alegria;

Grita tua dor

Com um silêncio de loucura;

Quebra uma promessa

Com a força de quem jura;

E aquece o que restou

Com o gelo d'alma fria.



Não há mais lugar pra ti...

Quem se importa ?

Qual será o fim da história

Que um dia não teve fim ?


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AULA

(escrito em 1989)

Soma de letras

Diminuição de quantias

Multiplicação de conhecimentos

Divisão das classes

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CONJUGADO

(escrito em 1994)

Sou um Futuro do Pretérito.

Imprefeito é meu passado...

E o meu Presente, de Indicativo só tem o modo.


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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

loucura

minha

olho ao redor e vejo uma manhã fria e úmida

como já não sei mais nada, acho que a umidade e o frio podem estar apenas nos meus olhos.

me abraço para me proteger do frio... a umidade, não há como evita-la.

já me congelaram os pés, as mãos, o nariz e a alma.

não sei se sinto frio ou se o sou.

se o sou, não o era, me tornei.

tudo é silêncio ou barulho, já não sei. sei que me envolve e me ensurdece, me embala e me enlouquece.

também não sei mais o que é loucura.

será que loucura é quando alguém se afasta do mundo real, ou será que é quando o mundo realmente se afasta de alguém?




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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Fórmula da vida

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Eu + Tempo + Circunstâncias + Amigos + Decisões + Aprendizado – bobagens = EU MELHOR


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quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Doenças e Palavras

Viviane Mosé

muitas doenças que as pessoas têm são poemas presos
abscessos tumores nódulos pedras são palavras calcificadas
poemas sem vazão

mesmo cravos pretos espinhas cabelo encravado
prisão de ventre poderia um dia ter sido poema

pessoas às vezes adoecem de gostar de palavra presa
palavra boa é palavra líquida
escorrendo em estado de lágrima

lágrima é dor derretida
dor endurecida é tumor


lágrima é alegria derretida
alegria endurecida é tumor

lágrima é raiva derretida
raiva endurecida é tumor

lágrima é pessoa derretida
pessoa endurecida é tumor

tempo endurecido é tumor
tempo derretido é poema


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Mestre...

Guimarães Rosa

"Mestre não é quem sempre ensina, mas quem, de repente, aprende."

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segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

40

Canção do U2 (Salmo 40)

I waited patiently for the Lord
He inclined and heard my cry
He brought me up out of the pit
Out of the miry clay

I will sing, sing a new song
I will sing, sing a new song
How long to sing this song?

How long to sing this song?
How long, how long, how long
How long to sing this song?

He set my feet upon a rock
And made my footsteps firm
Many will see, many will see and fear


I will sing, sing a new song
I will sing, sing a new song
How long to sing this song?

How long to sing this song?
How long, how long, how long
How long to sing this song?

É Proibido Pensar.

João Alexandre (músico-poeta)
Uma crítica inteligente e irônica às mais recentes "modas" no meio musical evangélico.

Procuro alguém pra resolver meu problema,
Pois não consigo me encaixar neste esquema.
São sempre variações do mesmo tema,
Meras repetições.

Extravagâncias vem de todos os lados
e faz chover profetas apaixonados.
Morrendo em pé, rompendo a fé dos cansados
Com suas canções.

Estar de bem com vida é muito mais que renascer.
Deus já me deu sua palavra
e é por ela que ainda guio o meu viver.

Reconstruindo o que Jesus derrubou,
Recosturando o véu que a cruz já rasgou,
Ressuscitando a lei pisando na graça,
Negociando com Deus.

No show da fé milagre é tão natural,
Que até pregar com a mesma voz é normal.
Nesse evangeliquez universal,
Se apossando do céus.

Estão distantes do trono, caçadores de Deus
Ao som de um shofar
E mais um hino importado dita as regras
Pra nos escravizar.

É proibido pensar (5x)

Procuro alguém pra resolver meu problema,
Pois não consigo me encaixar neste esquema,
São sempre variações do mesmo tema,
Meras repetições...

Meras repetições...

É proibido pensar...

Traduções contemporâneas dos dez mandamentos

Ed René Kivitz

Por que os dez mandamentos são as dez coisas mais difíceis que tentamos fazer na vida.

I Não terás outros deuses
Não crerás na existência de outros deuses, senão de Deus.
Não explicarás o universo senão em relação a Deus.
Não terás outro critério de verdade senão Deus.
Não te relacionarás com pseudodivindades, senão com Deus.
Não dependerás de falsos deuses, senão de Deus.
Não terás satisfação em nada que exclua Deus.

II Não farás imagens
Não tratarás como Deus o que não é Deus.
Não compararás Deus com qualquer de suas criaturas.
Não atribuirás poder divino a qualquer das criaturas de Deus.
Não colocarás nenhuma criatura entre ti e o teu Deus.
Não diminuirás Deus para que possas compreendê-lo ou dominá-lo.
Não adorarás qualquer criatura que pretenda representar Deus.

III Não tomarás o nome do teu Deus em vão
Não dissociarás o nome da pessoa de Deus.
Não colocarás palavras na boca de Deus.
Não te esconderás atrás do nome de Deus.
Não usarás o nome de Deus para te justificares.
Não te relacionarás com uma idéia a respeito de Deus, senão com o próprio Deus.
Não semearás dúvidas respeito do caráter e da identidade de Deus.

IV Lembra-te do sábado
Não deixarás de dedicar tempo exclusivamente para Deus.
Não deixarás de prestar atenção em Deus.
Não deixarás de descansar em Deus.
Não derivarás teu valor da tua produtividade.
Não tratarás a vida como tua conquista.
Não deixarás de reconhecer que em tudo dependes de Deus.

V Honra teu pai e tua mãe
Não negarás tua origem.
Não terás vergonha do teu passado.
Não deixarás de fazer as pazes com tua história.
Não destruirás a família.
Não banalizarás a autoridade dos pais em relação aos filhos.
Não deixarás teu pai e tua mãe sem o melhor dos teus cuidados.

VI Não matarás
Não tirarás a vida de alguém.
Não tirarás ninguém da vida.
Não negarás o perdão
Não farás justiça com tuas mãos movidas pelo ódio.
Não banirás ninguém da tua vida.
Não negarás ao outro a oportunidade de existir na tua vida.

VII Não adulterarás
Não farás sexo.
Não farás sexo na imaginação.
Não farás sexo virtual.
Exceto com teu cônjuge.
Não te deixarás dominar pelos teus instintos físicos.
Não terás um coração leviano e infiel.
Não te satisfarás apenas no sexo, mas te realizarás acima de tudo no amor.

VIII Não furtarás
Não vincularás tua satisfação às tuas posses.
Não te deixarás dominar pelo desejo do que não possuis.
Não usurparás a propriedade e o direito alheios.
Não deixarás de praticar a gratidão.
Não construirás uma imagem às custas do que não podes ter.
Não pensarás só em ti mesmo.

IX Não dirás falso testemunho
Não dirás mentiras.
Não dirás meias verdades.
Não acrescentarás nada à verdade.
Não retirarás nada da verdade.
Não destruirás teu próximo com tuas palavras.
Não dirás ter visto o que não vistes.

X Não cobiçarás
Não viverás em função do que não tens.
Não desprezarás o que tens.
Não te colocarás na condição de injustiçado.
Não desdenharás os méritos alheios.
Não duvidarás da equanimidade das dádivas de Deus.
Viverás para fazer teu o que é do teu próximo, mas do teu próximo o que é teu.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Dos Amigos

Anselm Grün, em "O Livro da Arte de Viver", pág. 156, ed. Vozes.

Diz um ditado: "Com um amigo ao lado, nenhum caminho é longo demais".

O amigo ao lado nos dá forças para continuar, apesar de todas as adversidades. Ele nos sustenta para não desistir, quando estamos encostados na parede. Ele nos motiva na ousadia da luta pela vida.

Sem amigo corremos o risco de perder o chão sob os pés. Sabendo que meu amigo me apóia, os problemas se relativizam. Sem amigo, eu já teria dito diversas vezes: "Dane-se!". Mas sei muito bem que isso não teria feito favor algum a mim e às pessoas ao meu redor.

A conversa com o amigo me permite descobrir o meu próprio modelo de vida. Eu sinto que entraria num beco sem saída. O amigo me preserva disso. Ele me dá aquele fôlego longo de que preciso para terminar minha caminhada.


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Da Existência de Deus

Em "O Espírito do Ateísmo", André Comte-Sponville propõe uma espiritualidade para ateus, isto é, uma metafísica sem Deus, e demonstra uma sobriedade ausente entre os recentes “religiofóbicos”, como Richard Dawkins, Michel Onfray e Christopher Hitchens.

Ao final de sua argumentação conta que na adolescência, após ler o Eclesiastes, escreveu no caderno de notas: “Das duas uma. Ou Deus existe, e então nada tem importância. Ou Deus não existe, e então nada tem importância”. Na vida adulta conclui: “Não filosofei em vão. Repensando aquela fórmula da minha adolescência eu antes diria o contrário: “Ou Deus existe, e então tudo é importante; ou Deus não existe, e então tudo é importante”. Seguem alguns comentários sobre as possibilidades.

#1

Deus não existe, então nada é importante. Isso é niilismo. Um mundo sem Deus é vazio de valores superiores, ou como disse Nietzsche, “faltam os fins, não há mais resposta para a questão: para que?”. Pensamento concorde com Dostoiévski: "Se Deus não existe e a alma é mortal, tudo é permitido". Deus é a base absoluta do juízo moral, a única plataforma verdadeira de responsabilidade infinita. Os céticos aos poucos se tornam cínicos. E logo se tornam loucos. Não é possível ao homem sobreviver no vazio.

#2
Deus existe, então nada é importante. Isso é fanatismo. Separar Deus de sua criação e jogar todas as fichas na transcendência, numa espiritualidade abstrata, implica abandonar a única possibilidade de encontro com o divino, a saber, a imanência, com que se pode interagir dada a transparência. A tentativa de experimentar Deus além da imanência é ilusória. Dar as costas ao mundo de Deus é desprezar o Deus do mundo. Não peço que os tires do mundo... Apenas os fanáticos se sentem bem na “espiritosfera”. E lá também enlouquecem.

#3
Deus não existe, então tudo é importante. Isso é materialismo. É dar valor último ao que é penúltimo. Chesterton tinha razão, quando deixamos de acreditar em Deus, acabamos crendo em qualquer bobagem. O que é esse “tudo” sem Deus, senão deus? Ainda não entendi (falha minha, é claro), a lógica que afirma que a descrença em Deus resulta em melhor humanidade. Se Deus não existe, tudo é efêmero. Então tudo é temporariamente importante. O que é temporariamente importante, não é importante em si, mas em sua função no tempo. Toda importância é relativa. Toda importância relativa é uma desimportância. Esta terceira possibilidade não me faz sentido. Entre esta e a primeira, fico com a aquela.

#4
Deus existe, então tudo é importante. Isso não sei o que é. Mas é a fé que me mobiliza.



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Do Ano Novo

Carlos Drummond de Andrade

"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente."

domingo, 9 de setembro de 2007

Teologia do Cotidiano

(Um livro maravilhoso de Rubem Alves)

1.Sobre os heróis
O Betinho é humano e conhecido demais para que seja pranteado como um deus.

No nosso mundo não existe mais lugar para os heróis solitários. As máquinas, as instituições, as organizações, os partidos – tudo é grande demais. Ali os indivíduos desaparecem. Ficam sem rosto. São substituíveis. Mesmo os heróis do futebol: se jogam mal, ficam de fora...

O herói é o símbolo do nosso eterno desejo de sermos belos, puros e valentes. Que todos nos vejam!

2. Sobre a liberdade
Meus filhos, a existência é boa só quando é livre. A liberdade é a lei.


3.A barbie
Os meninos, proibidos de ter bonecas, se abraçam aos seus ursinhos de pelúcia. E nós, adultos, proibidos de ter bonecas e de ter ursinhos de pelúcia, nos abraçamos ao travesseiro... Os objetos são diferentes, mas o seu sentido é o mesmo: o desejo de aconchego e de ternura.

Essa é a primeira lição que a inofensiva boneca de plástico ensina. Ensina a horrível fala do eu tenho, você não tens. A maldição das comparações. A maldição da inveja.


4.Alegria
Não, eu não quero prazer! Eu quero alegria! Era isso o que dizia uma das amantes de Tomás, o médico de A Insustentável Leveza do Ser. E Tomás ficava perdido porque prazer ele sabia dar, é coisa de receita fácil, mora no corpo. Mas alegria é coisa mais sutil, mora na alma, no lugar das fantasias e da saudade.

Deus é aquele que é, mesmo quando não existe.


5.Prazer
Foi Deus que fez este festival de possibilidades de prazer.

Acho o prazer uma coisa divina. Para ele fomos feitos. O amor, o humor, a comida, a música, o brinquedo, a caminhada, a viagem, a vadiagem, a preguiça, a cama, o banho de cachoeira, o jardim – para estas coisas fomos feitos. Para isso trabalhamos e lutamos: para que o mundo seja um lugar de delícias. Pois esse, somente esse, é o sentido do Paraíso: o lugar onde o corpo experimenta o prazer.

6.O telefone
Alguns cientistas têm estado a debater se telefone celular causa ou não câncer. Como estão equivocados! A verdade é o oposto. É o câncer que produz o telefone celular. Telefone celular é uma doença, evidência de perturbação mental. Pois só pode ser louco quem quer carregar um chato a tiracolo.


7.Dr. Simão Bacamarte
E é por isso que vivo aconselhando todo mundo a ler poesia, pois só assim nos salvaremos da nossa banal e chata normalidade...


8.Idéias loucas
Quem pensa idéias loucas não é louco.

O que faz um louco não é a loucura da idéia. É a força da idéia.

O louco tem idéias fortes. O não-louco tem idéia fracas


9. Hora de esquecer
Somos o que lembramos

A memória é a presença da eternidade em mim.

O esquecimento é a memória vomitando o que faz o corpo sofrer.

Quem fica com os olhos fixados no passado se torna incapaz de ver o presente. E quem não tem olhos para o presente está morto


10. Preferiram morrer
Até mesmo se diz que a esperança é a última que morre. Mas o mais certo seria dizer: a penúltima. Porque a sua morte é o prenúncio da última morte, a morte daquele que conclui que não há mais razões para viver. Quando morrem as razões para viver, entram em cena as razões para morrer.
No mundo da riqueza, toda criança deve ser destruída a fim de ser transformada numa unidade de produção econômica. E é para isto que são mandadas às escolas.


11. Seguindo a canção
Mas a fome de um povo não se mata com arroz e feijão. Não só de pão viverão os homens e as mulheres... Um povo precisa comer beleza pra querer viver. Povo, para existir, há de se sentir bonito. Há de ter sonhos, dizia Santo Agostinho. Há de marchar com a banda, dizia o Chico. Há de seguir a canção, dizia o Vandré. É isso que o povo pede de nós, dizia o poeta Tagore, uma canção...


12. Sobre rezas
Pois lá está dito que Deus é espírito, vento impetuoso que sopra em todo lugar, o mesmo vento que ele soprou dentro da gente para que respirássemos, fôssemos leves e pudéssemos voar. Quem está no vento não pode estar firme. Firmes são as pedras, as tartarugas, as âncoras. Você já viu um papagaio firme? Papagaio firme é papagaio no chão, não voa. Pois eu estou mais é como urubu, lá nas alturas, flutuando ao sabor do imprevisível Vento Sagrado, sem firmeza alguma, rodando em largos círculos.

Não acredito em oração em que a gente fala e Deus escuta. Acredito mesmo é na oração em que a gente fica quieto para ouvir a voz que se faz ouvir no meio do silêncio.


13. O Galo
Deus não muda o seu jeito de ser, por causa do nosso jeito de ser.


14. O paraíso
Quem, dentro de si mesmo, um Paraíso não for capaz de encontrar, não será capaz também de, um dia, nele entrar...


15. Deus existe
E assim, me atrevendo a usar a ontologia de Riobaldo, eu posso dizer que Deus tem de existir. Tem Beleza demais no universo, e Beleza não pode ser perdida. E Deus é esse Vazio sem fim, gamela infinita, que pelo universo vai colhendo e ajuntando toda a Beleza que há, garantindo que nada se perderá, dizendo que tudo o que se amou e se perdeu haverá de voltar, se repetirá de novo. Deus existe para tranqüilizar a saudade.

Posso então responder à pergunta que me fizeram. É claro que acredito em Deus, do jeito como acredito nas cores do crepúsculo, do jeito como acre dito no perfume da murta, do jeito como acredito na beleza da sonata, do jeito como acredito na alegria da criança que brinca, do jeito como acredito na beleza do olhar que me contempla em silêncio. Tudo tão frágil, tão inexistente, mas me faz chorar. E se me faz chorar, é sagrado. É um pedaço de Deus... Dizia o poeta Valéry: Que seria de nós sem o socorro daquilo que não existe?

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