terça-feira, 17 de março de 2009

RELIGIÃO

Brian McLaren

"Uma religião deve ser valorizada pelos benefícios que traz aos que não são seus adeptos."



(Muito "caradepaumente" chupinhado do blog do Villy http://villyfomin.blog.terra.com.br/.)

EQUILÍBRIO

Cecília Meireles

No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta.



.

UM CEGO

Jorge Luis Borges

Não sei qual é a face que me mira
quando miro essa face que há no espelho;
e desconheço no reflexo o velho
que o escruta, com silente e exausta ira.
Lento na sombra, com a mão exploro
meus traços invisíveis. Um lampejo
me alcança. O seu cabelo, que entrevejo,
é todo cinza ou é ainda de ouro.
Repito que perdi unicamente
a superfície vã das simples coisas.
Meu consolo é de Milton e é valente,
porém penso nas letras e nas rosas.
Penso que se pudesse ver meu rosto
saberia quem sou neste sol-posto.



.

SALVOS DA PERFEIÇÃO

Elienay Cabral Jr.  

Deus de tão perfeito conheceu a plenitude do tédio. De tão cercado pelo idêntico a si mesmo, incapaz de dizer por que hoje não é apenas um reflexo de ontem, sem jamais ter sonhado com um outro dia, enfadado com a previsibilidade de um mundo impecável, inventou o amor. Ou seria, preferiu amar?

A invenção do amor, ou dos amigos, é o encontro com o imperfeito e aqui está a sua grandeza. Nada se compara ao êxtase da imaginação, à adrenalina do inusitado, ao ciúme diante do livre amante, à ardência do anseio pelo melhor, ao sabor fugidio do fugaz, à satisfação de um mundo transformado, ao descanso gostosamente dolorido diante do que não mais é caos. Sensações próprias da vida imperfeita, do que está para sempre para ser, dos que sempre podem desejar uma outra coisa. Dos humanos.

Logo depois de inventar o imperfeito, Deus conheceu a lágrima da frustração. A dor mais feliz que espíritos livres sentem. Viu as costas dos que mais amou. Duvidou sem desistir, o Criador chorou mais uma vez. Desta lágrima descobriu o perdão. Lágrima esquentada com afeto e graça.

Mal compreendido pelos amigos, inimigos tolos, pecado, recobriram-no de ídolo. De tão cansados do incerto, angustiados por tanta liberdade, os amigos inventaram ídolos, pretensos profetas e arrogantes senhores do futuro, sacerdotes e magos de um deus acuado, cristos milagreiros da mesmice ressurreta. Inventaram a religião, vestiram-se de absoluto.

Deus, que do absoluto fugiu em desespero, que inventara o imperfeito, imperfeito se fez. Inventou-se entre os incertos. Aperfeiçoou a imperfeição. Humanizou-se entre humanos. De tão impreciso, despido das forças do absoluto, igualmente inapreensível, excepcionalmente frágil, tão vivo e tão morto, descortinou o absoluto como quem desnuda o que é mau. Imperfeito, salvou-nos da perfeição.


.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

sobre poesia...

O Trevisan
(ex-Teatro Mágico)

"... são apenas meias palavras sem sentido,

que de tão sentidas,

se sentem obrigadas a serem citadas... recitadas... recitadas."


.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

MORADIA

Oswaldo Montenegro

Quando eu era criança meus amigos queriam ser militar, médico, engenheiro, jogador de futebol... E havia até mesmo um que eu admirava mais  porque queria ser bombeiro.

Eu queria ser... calmo. Não sou. Às vezes finjo e canastro. Não conheço a tal da paz. Alegria e emoção, sim. Mas serenidade nunca experimentei.

Aos 10 anos olhava meu pai curtindo o domingo e tentava imitar. Falhava.

Tudo bem, eu me iludia, é que ele tem mais de 30 anos.

Hoje, aos 52, as coisas sambam no meu peito como se um Olodum acelerado me habitasse.

Estou devorado pela ansiedade, animado, correndo e tenso. Paro um pouco pra retificar: não é bem tenso, é voraz.

Acordo pronto pra devorar o mundo. Admiro as coisas plácidas, mas gosto da febre da arte. Aí sim, a volúpia parece adequada.

E é ali, só ali, exclusivamente ali, para sempre ali, que eu quero morar.


.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Simplesmente compartilhar a vida...

"A Cabana" de William P. Young (Ed Sextante) - pags 164 e 165

- Bom, Mack, nosso destino final não é a imagem do Céu que você tem na cabeça. Você sabe, a imagem de portões adornados e ruas de ouro. O Céu é uma nova purificação do universo, de modo que vai se parecer bastante com isso aqui.


- Então que história é essa de portões adornados e ruas de ouro?

- Esta, irmão - começou Jesus, deitando-se no cais e fechando os olhos por causa do calor e da claridade do dia - é uma imagem de mim e da mulher por quem sou apaixonado.

Mack olhou para ver se ele estava brincando, mas obviamente não estava.

- É uma imagem da minha noiva, a Igreja: indivíduos que juntos formam uma cidade espiritual com um rio vivo fluindo no meio e nas duas margens árvores crescendo com frutos que curam as feridas e os sofrimentos das nações. Essa cidade está sempre aberta e cada portão que dá acesso a ela é feito de uma única pérola... - Ele abriu um olho e olhou para Mack. - Isso sou eu! - Ele percebeu a dúvida de Mack e explicou: - Pérolas, Mack. A única pedra preciosa feita de dor, sofrimento e, finalmente, morte.

- Entendi. Você é a entrada, mas... - Mack parou, procurando as palavras certas. - Você está falando da Igreja como essa mulher por quem está apaixonado. Tenho quase certeza de que não conheço essa Igreja. - Ele se virou ligeiramente para o outro lado. - Não é certamente o lugar aonde eu vou aos domingos - disse mais para si mesmo, sem saber se era seguro falar em voz alta.

- Mack, isso é porque você só está vendo a instituição, que é um sistema feito pelo ser humano. Não foi isso que eu vim construir. O que vejo são as pessoas e suas vidas, uma comunidade que vive e respira, feita de todos que me amam, e não de prédios, regras e programas.

Mack ficou meio abalado ouvindo Jesus falar de "igreja" desse modo, mas isso não chegou a surpreendê-lo. De fato, foi um alívio.

- Então como posso fazer parte dessa Igreja? Dessa mulher pela qual você parece estar tão apaixonado?

- É simples, Mack. Tudo só tem a ver com os relacionamentos e com o fato de compartilhar a vida. É exatamente o que estamos fazendo agora, simplesmente isso, sendo abertos e disponíveis um para o outro. Minha Igreja tem a ver com as pessoas e a vida tem a ver com os relacionamentos. Você pode construí-la. É o meu trabalho e, na verdade, sou bastante bom nisso - disse Jesus com um risinho.

Para Mack essas palavras foram como um sopro de ar puro! Simples. Não um monte de rituais exaustivos e uma longa lista de exigências, nada de reuniões intermináveis com pessoas desconhecidas. Simplesmente compartilhar a vida.


quinta-feira, 4 de setembro de 2008

... e pra que ter fé?

Outra Espiritualidade - Ed. R. Kivitz – Mundo Cristão.

“Você tem fé? Então não me venha com testemunhos das coisas que Deus fez em seu favor. Eu quero saber o que você fez em favor dos outros. A fé é aquilo em nós que nos arremessa na direção do próximo: Que tem fé e não reparte o pão ou não veste o que tem frio tem uma fé morta, uma fé que não vale nada, pois a fé não é a capacidade de mover a mão de Deus em nosso favor, mas a capacidade de mover a nossa mão em favor do próximo.

Foi por esta razão que Jesus exortou seus discípulos, chamando-os ‘homens de pequena fé’. A cena é bem conhecida: um barco, Jesus dormindo, os discípulos apavorados e uma tremenda tempestade no mar da Galiléia. Os discípulos disputavam entre si para ver quem se atreveria a acordar Jesus e chamar sua atenção para o perigo iminente, quem seria o corajoso a denunciar o pouco-caso do Mestre para com suas vidas. Fizeram, então, o que qualquer um de nós faria: pediram que Jesus desse um jeito na chuva. Jesus atendeu ao seu clamor. Mas, estranhamente, em vez de elogiar sua fé, denunciou sua pequenez.

O que isso significa? Significa que eles tiveram fé suficiente em Jesus, mas não tiveram a fé de Jesus. Tinham fé suficiente para acreditar que Jesus poderia resolver o problema com a autoridade que Jesus lhes delegara. Pediram para Jesus agir, e Jesus agiu. Tiveram a fé que moveu a mão de Deus, mas não foram capazes de levantar as próprias mãos para dar ordens ao vento e à chuva. Sua fé os manteve com mãos recolhidas, desmobilizadas. O que aparentemente era uma expressão de fé e dependência do poder de Jesus era, na verdade, um ato covarde de quem não cresceu na fé.

As coisas continuam do mesmo jeito. A maioria dos discípulos contemporâneos busca crescer na fé para que possa usufruir mais de Deus. São poucos os que buscam crescer na fé para que possam ser mais úteis nas mãos de Deus. Creio que uma das razões para a distorção é que aprendemos a associar a fé às manifestações do poder de Deus, em vez de a relacionarmos com as expressões de serviço do povo de Deus. A fé está relacionada com o serviço, e não com poder. “Você tem fé? Então me mostre as suas obras” (Tg 2:18).

Basta você abrir sua Bíblia em Hebreus 11 e verificar que o elogio aos heróis da fé não se deve ao que Deus fez por eles, mas ao que, mobilizados pela fé, fizeram por Deus: ofereceram sacrifícios, obedeceram, dedicaram filhos, viveram como peregrinos, renunciaram a riquezas e posições, conquistaram reinos, praticaram a justiça, se entregaram ao martírio, sofreram toda sorte de infortúnios em favor e na esperança do Reino eterno e da cidade cujo fundamento é Deus. Os heróis da fé não são heróis por serem muito abençoados, mas porque abençoam a muitos.

Há uma razão para que a fé nos mobilize na direção de Deus e do serviço. Muito provavelmente porque a fé não é confiança naquilo que Deus vai fazer ou pode fazer. Costumo dizer que isso não é fé, é esperança, pensamento positivo, torcida. A fé não é expectativa quanto ao que Deus vai fazer. A fé é confiança profunda em Deus. Fé é crer no caráter de Deus. Fé é deixar as preocupações com a própria a vida – o que comer, o que vestir, onde morar – nas mãos de Deus, confiando em sua bondade, seus propósitos e suas intenções. Fé é crer que Deus tem para nós planos de paz e felicidade, para nos dar um futuro. Somente quem crê assim em Deus é livre para deixar de pensar em si e experimentar a liberdade necessária para que as mãos sejam mobilizadas na direção do serviço ao próximo.

Creio, sim, que Deus age em resposta a fé. Creio que a incredulidade nos priva de muito do que Deus tem para nos dar. Creio, sim, que não raras vezes somos invadidos por convicções profundas quanto ao mover de Deus e seu feitos que nos são comunicados ao coração de antemão pelo Espírito Santo. Mas creio também que minha fé não deve se prestar ao papel de pretender mover a mão de Deus. Ao que aspiro é a dimensão de fé que faz de Deus meu companheiro. Quero a qualidade de fé que me possibilite andar com Deus, a extensão de fé que me leve para dentro do coração do Pai, cada vez mais fundo, para que ouça sua voz, receba a revelação de seus propósitos, ouça seus segredos. E que de lá eu me levante com mãos arregaçadas para cumprir sua vontade – ser e fazer no mundo aquilo que estou destinado a ser e fazer para Deus, seu Reino, sua Igreja e os que ainda não são completamente seus.

Não quero a fé que espera Deus trabalhar por mim. Quero a fé que me faz trabalhar para Deus. Não quero a fé que me faça prosperar entre meus irmãos. Quero a fé que me faça cooperar e servir para que meus irmãos prosperem. No fundo, acho que sou movido por ambições maiores: não quero ser apenas fiel, quero ser herói da fé. Não me basta ser o tipo de homem que é digno no mundo. O que quero mesmo é ser o tipo de homem do qual o mundo não é digno.”

.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

O Lado de Lá do Ge

(...)

O lado de lá da lua
O lado de cá do sol
O lado de lá da rua
E o medo de virar pó

Um pouco demais de tudo
Uma sobra não recolhida
Um medo bobo do mundo
Uma metade mal enchida

Em segredos e mistérios
De poemas e canções
Minha vida (revertérios)
De segredos e ilusões

Me revelo e me escondo
Me encontro e me exponho
Me machuco e me reponho
Me descubro: sou só sonho

O lado de lá da lua
O lado de cá do sol
O lado de lá da rua
E o medo de ficar só

.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

(sem nome)

julho/2008

Quando eu me esconder, você vem me procurar?
E quando eu errar, você vai me criticar?
Quando eu chorar, você vem me ouvir?


Quando eu me perder, você vem me buscar?
Quando eu te magoar, você vem me perdoar ?
Tudo isso sem eu te pedir?


Que amor é esse ?
Que não me pede um gesto,
Que não me cobra nada,

Que só me ama e pronto...

Se este amor não tem fim,
Será que cabe em mim?

Quem pode não querer um amor assim?


.

vozes

julho/2006

... havia duas vozes: a minha e a outra.

Quando a minha falava, a outra zombava... e quando ela falava, a minha calava.

Quanto mais eu ouvia a outra voz, mais me acostumava com ela...

Então ela falava e a minha zombava... a minha falava e ela calava.

... havia duas vozes: a minha e a outra... eu só não sabia qual era qual.

Quem é que sabe?

Oswaldo Montenegro

Quem é que sabe o que vai durar no tempo?

Quem é que diz o que o futuro abrigará?

Qual é o valor de ter valor o pensamento?

Quem é o juiz que vai nos dar o alvará?

Qual é o artista que é melhor do que o colega?

Qual é a música que povo aplaudirá?

Qual é a justiça que abre o olho e diz que é cega?

Qual é o porto de onde o barco afundará?

Qual é o leme que o capitão confisca?

Qual é o líder que o povo seguirá?

Qual é o certo: é o que pensa ou o que arrisca?

Quem é que sabe, saberia ou saberá?

Qual é a cor do vento frio em seu cabelo?

Qual é a virtude que a modéstia esconderá?

Qual é a ponta que enrolou este novelo?

Quem é que diz que é que ouve e vai falar?

Qual é o critério que consagra a poesia?

Quem é que marca a ferro e fogo o Avatar?

Que é que diz no anoitecer se é noite ou dia?

Qual é o limite em dar carinho e educar?

Quem é que sabe o que é que faz a qualidade?

Quem é que sabe o que jamais perecerá?

A gente fica velho assim com que idade?

Qual é o limite entre o que acaba e o que virá?

Como eu não sei e nunca soube nada acima

Eu me divirto, toco a vida e Deus dará

A vida é quase que um mergulho na piscina

Os dois segundos antes de se mergulhar

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Desejo

Vitor Hugo

Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.

Desejo, pois, que não seja assim
Mas se for, saiba ser sem se desesperar
Desejo também que tenha amigos
Que mesmo maus e inconseqüentes
Sejam corajosos e fiéis
E que pelo menos em um deles
Você possa confiar sem duvidar

E porque a vida é assim
Desejo ainda que você tenha inimigos
Nem muitos, nem poucos
Mas na medida exata para que
Algumas vezes você se interpele
A respeito de suas próprias certezas.
E que entre eles
Haja pelo menos um que seja justo

Desejo depois, que você seja útil
Mas não insubstituível
E que nos maus momentos
Quando não restar mais nada
Essa utilidade seja suficiente
Para manter você de pé.

Desejo ainda que você seja tolerante
Não com os que erram pouco
Porque isso é fácil
Mas com os que erram muito e irremediavelmente
E que fazendo bom uso dessa tolerância
Você sirva de exemplo aos outros

Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais
E que sendo maduro
Não insista em rejuvenescer
E que sendo velho
Não se dedique ao desespero
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor

Desejo, por sinal, que você seja triste
Não o ano todo, mas apenas um dia
Mas que nesse dia
Descubra que o riso diário é bom
O riso habitual é insosso
E o riso constante é insano.

Desejo que você descubra
Com o máximo de urgência
Acima e a respeito de tudo
Que existem oprimidos, injustiçados e infelizes
E que estão bem à sua volta
Desejo ainda
Que você afague um gato, alimente um cuco
E ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque assim, você se sentirá bem por nada

Desejo também
Que você plante uma semente, por menor que seja
E acompanhe o seu crescimento
Para que você saiba
De quantas muitas vidas é feita uma árvore

Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro
Porque é preciso ser prático
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele na sua frente e diga:
"Isso é meu"
Só para que fique bem claro
Quem é o dono de quem

Desejo também
Que nenhum de seus afetos morra
Por eles e por você
Mas que se morrer
Você possa chorar sem se lamentar
E sofrer sem se culpar

Desejo por fim
Que você sendo homem, tenha uma boa mulher
E que sendo mulher, tenha um bom homem
Que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes
E quando estiverem exaustos e sorridentes
Ainda haja amor pra recomeçar

E se tudo isso acontecer
Não tenho mais nada a lhe desejar

.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

O caminho e o caminhante

Leon Tolstoi

“Se trilho embriagado pelo caminho para minha casa, o caminho não deixa de ser certo simplesmente porque ando por ele cambaleante”


.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Televisão do Matuto

Rodrigo Sestrem

Seu dotô, num leve a mal!
Num sô mal agradecido,
Mas preciso devolvê
O presente recebido
Qui só causô confusão
Essa tar “tulevisão”
Eita, caixote inxirido!

Meus minino, coitadinho,
Já num come mais marmita!
Só querem EME CÊ DONÁUD
A mãe deles fica aflita
MAQUI XIQUE, MAQUI FIXE,
MAQUI O DIACHO TODO, VIXE!
Má qui coisa esquisita!

Tem um tar de videogâmi,
Um que tem uns “PLEI” no nome...
Que deixa os minino doido,
Só param quando a luz some!
Tem uns bicho dos inferno!
Uns barulho tão muderno,
De dá medo em Lubisômi!

Inté mermo minha mulé,
Sempre tão respeitadera,
Quis quebrá o pau cumigo
Por causo de uma besteira
Porque viu esta manhã
Um tar JORGE FOREMÃ
Vendeno uma frigideira!

A minha filha mais velha
O sinhô veja se isso pode!
Disse qui qué viajá!
Quando eu nego, se sacode!
Qué ir prus Rio de Janeiro
Diz qui vai ganhá dinheiro
Com um tar um BIG BRÓDI!

Minha sogra, na cozinha,
Cada dia inventa um prato.
Só num faz tripa de bode
Num faz bucho nem faz fato.
Só cumida da istrangêra
De uma LÔRA FALADÊRA
E de um PAPAGAIO CHATO!

Um dia, eu pensei cumigo:
Pra qui toda essa agonia?
Só por causo de um caixote
Que só mostra fantasia?
Resolvi sentá um pouco
Mermo achando qui era louco!
Mas pra vê se entendia...

E o qui eu vi me fez tremê...
Seu dotô, eu nem te conto!
Foi tanta barbaridade
Qui eu quase qui fico tonto!
E ói qui eu sô macho que só!
Nunca dei ponto sem nó,
E nem nó fora do ponto!

Vi uns homi bem vestido
Remexendo as duas mão,
Dizendo qui era pastor,
Mas num vi as cabra não!
Apontavam lá pra Cruz,
Se diziam de Jesus,
Mas só falavam no Cão!


.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Meus 39 anos

Afinal, o que é um aniversário?

Bom, meu aniversário nada mais é pra mim que um dia de lembrança...

Meu aniversário não é só bolinho, brigadeiros e “parabéns-pra-você” (aliás, corro disso!). Meu aniversário é aquele dia em que lembro de quem interferiu na minha vida e que há vários anos tenho interferido na vida das pessoas. Nos meus aniversários, também me lembro que sou mortal e que minha caminhada é certa para o fim.

A rapidez com que os anos se derretem lembra que a vida é um foguinho de nada e tá sempre chovendo.

Não vou ficar aqui enumerando as vantagens e desvantagens de ficar mais velho, basta dizer, que tenho vivido. O que também significa que tenho sofrido um pouco, afinal não sou diferente de ninguém.

A cada dia aprendo que a vida é simples... e de uma simplicidade assustadora!

“Viver consiste em... viver !” - o que parece uma frase vazia é a mais pura verdade.

Acorda-se, come-se - vive-se. Trabalha-se, conversa-se - vive-se.

Viver é ser, é estar, mas não é controlar. Viver é não prever nem tampouco se antecipar. Viver é quase se despreocupar. Viver é saber que o que não tem remédio remediado está.

Não sou um “professor de vida” e nem pretendo ser. Quero continuar errando e aprendendo. Só gostaria de acertar um pouquinho mais...

Chego aos 39 anos com sentimentos confusos, porque tem dias em que me sinto ainda bem novo e tenho até vontade de voltar a tocar e ter banda de rock.

Há dias, porém, em que me sinto um velho rabugento, cheio de manias, com o corpo e a mente cansados desta vida cheia de altos e baixos.

Assim sigo. Porque viver é seguir. Se a morte me atormenta, faço dela um texto, para que, quem sabe, talvez ela se esqueça de mim... como eu também esqueço de meus textos...

E de um jeito muito estranho, meus pensamentos têm um propósito firme: resistir.

Às vezes sinto que sou uma besta, mas dei sorte porque meus amigos não acham.

Sobre os amigos, bem, os últimos anos têm sido interessantes. Tenho conhecido muita gente e depois “desconhecido” as mesmas pessoas. Pessoas antigas e novas têm saído da minha vida, numa movimentação que antigamente me atormentava, mas que hoje, cada vez mais eu encaro como natural.

Mesmo assim, continuo não entendendo o porquê de, mesmo querendo muito, não conseguir me relacionar muito bem com algumas pessoas. Ou melhor, até entendo, mas não vem ao caso.

Tô feliz com meus poucos amigos e com nossa deliciosa capacidade de nos suportarmos apesar das nossas diferenças... dizem que isso é amor.

Na minha vida estou aprendendo a não fazer planos. Muitos dos que fiz, simplesmente se esqueceram de me incluir neles...

Mesmo assim vou me esforçar para ser produtivo.

Mesmo assim vou amar e ficar raiva... vou me alegrar e chorar... vou sonhar e me decepcionar...

Porque assim têm sido os anos desde aquele outono de 1969.



.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

CADEIA CÍCLICA

(escrevi em 1997)


É essa noite que me envolve que me assusta.

É esse medo incontrolável que me cala.

É esse silêncio inexorável que me imobiliza.

É essa inércia irracional que a tudo escurece.

É essa noite que me envolve que me assusta.



.

(sem nome)

(escrevi em 1995)


Meu desejo lírico

Teu beijo clínico

Meu protesto tímido

Teu retorno áspero

Meu pedido último

Teu carinho bélico

Meu silêncio úmido


.

INVENTÁRIO

(escrito em 1994)

Ilusões antigas,
Um coração quebrado,
Sobras de esquecimentos,
Vontades e quereres,
Um monte te quases...

Canções incompletas,
UM velho desejo,
Segredos incontáveis,
Fantasias, planos...
E Planos...

Muitas esperanças,
Algumas alegrias,
Uma pequena saudade,
Poucos amores,
Outro monte de quases...

Vazios imensos,
Pedaços de sonhos,
Decepções variadas,
Poucos inimigos
E nenhum...
Nenhum amigo de verdade...


.

quarta-feira, 26 de março de 2008

MEDO DE NUVEM E VENTO

(baseado em Mário Quintana)

Medo de nuvem
Medo de vento
Medo do mundo
Medo do medo

Medo da nuvem
Que vai se abrindo
Qque não se sabe
O que vai saindo

Medo do vento
Que vai soprando
Que não se sabe
O que vai dizendo

Medo do gesto mudo
Medo da fala surda
Que vai movendo
Que vai dizendo
Que não se sabe
Que bem se sabe
Que tudo é nuvem
Que tudo é vento


.