quinta-feira, 23 de julho de 2015

Palavras que...

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inspiram também oprimem

libertam também aprisionam

revelam também escondem

declaram também confundem

expressam também enganam

curam também adoecem

limpam também sujam



resistem também sucumbem

preparam também procrastinam

aquecem também queimam

refrescam também congelam

conectam também desligam

agregam também excluem

compartilham também eliminam



inocentam também acusam

escapam também retêm

escorrem também represam

aproximam também afastam

reúnem também espalham

distribuem também restringem

salvam também condenam



Palavras são revelações, e também mistérios.

Palavras são significados, sempre em busca de sentidos.


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terça-feira, 5 de maio de 2015

O dia que virei case.

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Aeroporto, trânsito, pressa, uma coisa leva a outra: atraso.

A produtora tenta me tranquilizar: "O cliente ainda não chegou... te esperamos na recepção do 8o. andar."

Estacionamentos lotados, não tem vaga na rua, taxista me dá luz alta e me xinga.

Posto de gasolina, loja de conveniência, frentista bacana: "depois a gente acerta!"

Duas quadras, Whatsapp: to chegando!

Garoa chata, prédio bacana, piso de mármore, gordinho atrasado correndo‪#‎plaquinhaamarelapraquê‬?

Escorregão! Leve como uma pena...

A bunda dói. Tudo gira. A cabeça dói! Tudo gira. Queria ser invisível.

Todo mundo rindo. Executivo segura a risada, larga a mochila e ajuda o gordinho a levantar...

Vergonha, agradecimento, credenciamento, constrangimento, elevador, finalmente 8o. andar!

Equipe em pé morrendo de rir com o cliente que acabava de contar como ajudou um gordinho a se levantar na recepção: "Tadinho... tava correndo, parecia atrasado, não viu o aviso do piso molhado e caiu!"

Virei case.


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SONHOS - 2

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Sonhei que sonhava meus sonhos.

Então, para não esquecê-los quando acordasse, passei a amarrá-los com caneta em um caderninho velho que eu deixo ao lado da cama.

Quando acordei, corri pra pegar o caderninho e ir desamarrando um a um os coitadinhos.

Não deu certo. Nas páginas do caderninho só encontrei as velhas linhas e manchas esquecidas.

Percebi que os sonhos que eu sonho não se deixam aprisionar... Meus sonhos não passam de rabiscos e desejos que nem eu mesmo entendo.



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SONHOS - 1

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Tinha tantos sonhos que já não dormia.

Foi assim que os pesadelos passaram a assombrá-lo.


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sábado, 31 de janeiro de 2015

Meu Credo

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Acredito no talento, na dedicação, no merecimento, na justiça... 
E que o amor é maior que tudo isso.

Acredito na dor, na tristeza, na angústia, no sofrimento…
E que o amor é maior que tudo isso.

Acredito no possível, no impossível, na sorte, no acaso… 
E que o amor é maior que tudo isso.

Acredito na poesia, no mistério, no sentido, nos significados... 
E que o amor é maior que tudo isso.

Acredito na parceria, na jornada, na festa, na alegria... 
E que o amor é maior que tudo isso.

E acredito que o amor não existe sem ação… 
Acredito no amar.

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quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Palavras

"Nem só de pão viverá o homem..."

Palavras são limites

Limites são palavras

Palavras são caminhos
Caminhos são palavras

Palavras são viagens
Viagens são palavras

Palavras são mistérios
Mistérios são palavras

Palavras são revelações
Revelações são palavras

Palavras são limites
Limites são palavras

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Aquilo

Um misto de conto e crônica bem curtinho que escrevi.

Já não havia sentido continuar com aquilo.

Ela mal chegava em casa e já sentia que aquilo era demais para ela.

Toda vez que ele começava com aquilo, ela sabia: nada valia aguentar aquilo.

Aquilo dava a ela vontade de vomitar.

A primeira vez que ele fez aquilo, ela quase nem percebeu. Não deu nem tempo de pensar. Quando viu, ele já tinha feito.

Eles se conheceram muito jovens e logo engataram o namoro. Aquilo fazia parte de um lado oculto dele que ela não conhecia. Logo se tornou um segredo dos dois. Ela não gostava, sentia nojo, mas, por amor, suportava tudo aquilo calada. Suportou por muito tempo, mas agora já não aguentava mais.

A vontade dela era sair gritando, revelando a todos o segredo podre dele. Mas e a vergonha? Todos saberiam o que ela tem acobertado por tanto tempo. Ela era cumplice.

E como lidar com o fato de que, por muito tempo, ela também chegou a se divertir com aquilo. Fez até piada. Provocou. Pediu. E ela mesma, muitas vezes também fez aquilo.

Aquela noite era diferente. Vinte e cinco anos de casamento mudam qualquer um. Ela estava diferente. Havia voltado da terapia muito certa de si. Sabia que nunca mais iria mais tolerar aquilo. Era a hora do basta!

Entrou em casa e era evidente que ele estava fazendo aquilo. Ela queria vomitar. Juntou forças e foi até a sala. Ele estava lá, com seu prazer mórbido e sua alegria suja.

Ela estava muito nervosa, quase não respirava. Num ímpeto de coragem colocou pra fora todos os anos de constrangimento, humilhação e angústia.

Olhando firmemente nos olhos dele, sentindo a garganta apertada e os olhos ardendo, ela finalmente disse:

- Não aguento mais viver assim! Não aguento mais você com isso! Pelo amor de Deus, quer peidar, vai pro banheiro!



terça-feira, 14 de maio de 2013

Rir até a barriga doer


a criança e o velho em mim

"Rir até a barriga doer."

Ouvi essa frase essa semana quando conversava com um amigo sobre coisas que gostávamos de fazer quando éramos crianças.

Essa semana completei 44 anos.

Percebi que realmente estou ficando velho pois, ao assistir um vídeo de um humorista famoso, comecei a rir, rir, rir, até que comecei a sentir dor na barriga.

Como eu ria descontroladamente, minha reação no meio de tanta risada, foi escrever no Tablet "Liga 193 e chama a ambulância" pois, dentro de mim eu pensava "Será que a dor é na barriga ou no peito? Eu tenho que me controlar senão vou acabar tendo um infarto!"




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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Beleza, Alegria e Vida

Porque é assim...

Efêmera, fugaz, frágil, genuína, transitória, singela, impalpável, passageira, breve, delicada, fugidia, intangível, vulnerável, ligeira...

Assim é a beleza aos olhos de quem vê... assim é a alegria no coração de quem sente... assim é a vida.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Salvo.


1a. Versão postada em: https://www.facebook.com/george.saguia/posts/10200365813774846?

Chovia.

Era a tempestade mais assustadora da minha vida. Estrondos chacoalhavam meu corpo enquanto eu procurava abrigo.

Não conseguia ver direito onde estava. Meu celular não iluminava o suficiente para que eu reconhecesse algo ao meu redor. Eu só sabia que precisava sair dali.

Foi quando eu comecei a perceber que além da chuva e dos trovões havia um som. Fininho, baixinho, quase um sussurro. Algo não estava certo.

Apurei o ouvido, me concentrei.

Palavras! Alguém estava falando!

Estiquei o pescoço, como se fosse uma antena, tentando uma posição pra ouvir melhor.

A chuva foi diminuindo. O céu foi clareando. E um amoroso "Papai, quero mamadeira" me acordou e me salvou.



domingo, 26 de agosto de 2012

Parece Saudade


"... o futuro não é mais como era antigamente..."

Depois de um sábado agitado, finalmente chego em casa e coloco a Duda pra dormir em sua caminha.

Vou pra internet. Começo a ler notícias. Minha cabeça se enche de lembranças de projetos da minha juventude que não chegaram a se concretizar e o peito fica cheio de uma coisa esquisita que parece saudade.

Digo que 'parece saudade' pois ninguém pode sentir uma saudade verdadeira de algo que nunca aconteceu. É uma saudade de um 'futuro do pretérito', do talvez, do 'quem sabe'.

 Então escuto a Duda chamar: Papai, mamadeira! A sensação de saudade vai embora pra dar lugar a um preenchimento que não sei explicar. Pode parecer brega, mas é como se fosse um calor que me esquenta o peito, quase me suspende a respiração e enche minha boca de sorriso.

A saudade "do que poderia ter sido" é expulsa com carinho por outro sentimento, é a satisfação do presente que escorre no meu rosto em forma de lágrima, ressignifica a vida e faz todo o passado e o futuro ganharem novas cores.


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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Tempos, Sonhos e Acordes

na madrugada do dia 09/02/2011

Toda noite tenho um sonho.
Acordo, relutando a lutar
Vou vivendo, vou levando...

Todo dia vivo um sonho.
Acordes, ensaiando ensaiar.
Vou vivendo, vou levando...

A cor da noite me inspira
Acordes vivos me embalam
Sonho acordado com o próximo tempo
Outros sons, nossos momentos...

Vou no tempo, vôo no sonho.
Vôo no tempo, vou no sonho.

Toda noite tenho um sonho.
A corda não rompe por nada
Acordo suado, zoado, não durmo.

Todo dia vivo um sonho.
A cor do silêncio que toca
Que pinta sem retocar

Vou no tempo, vôo no sonho.
Vôo no tempo, vou no sonho.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Boas Notícias!

Acompanhando o que a Lena publicou no blog dela, publico este texto que enviei para parentes e amigos (e publiquei no orkut) quando a Duda chegou:

Na última quarta-feira (24/02) recebi um telefonema da Lena no meio de um evento... Como estava ocupado e ela insistia em ligar, pedi para o meu sócio João atendê-la. Ele chegou até mim mais branco que um papel e me disse meio assustado: “A Lena disse que ligaram do Fórum e eles querem saber se vcs querem ir até lá pra conhecer o histórico de uma criança de 1 ano e 5 meses.”

Quase tive um treco. Meu coração quase se derramou pelos meus olhos: “Fala pra ela dizer que SIM!” – quase não me saíram as palavras.

Engoli o choro. Controlei a emoção. Finalizei o evento e fui voando pra casa abraçar a Lena.

Para o jantar recebemos a visita de meus queridos tios Azizio e Yara (que nos venderam o apartamento para onde nos mudamos). Ficamos juntos até tarde. Jantar delicioso, companhia maravilhosa e o tempo voou.

Depois que eles saíram ficamos enrolando pois não tínhamos sono.

Quase não dormimos nada.

Levantamos nesta quinta-feira bem cedo e ficamos inventando coisas pra não pensar no assunto.

Chegamos ao Fórum meia hora antes do marcado. A psicóloga nos chamou em seguida e contou a história da menina. Perguntou se tínhamos interesse em conhecê-la e a resposta foi imediata: “Pode ser agora?”. Surpresa, ela ligou avisando o pessoal do abrigo e nos entregou uma autorização para conhecê-la.

Vinte minutos depois, a Lena e eu já estávamos dentro de uma sala ampla e muito agradável vendo a “Tia” Flora descer as escadas com aquele pequeno tesouro nos braços... Foi amor a primeira vista! Não tínhamos dúvida que era ela! Encontramos nossa filha! Nascida de outra barriga, com outros genes, mas totalmente nossa filha...

Após ficarmos com ela por uma hora, falamos por telefone com a psicóloga e ela nos disse: “Vou preparar os papéis para o juiz assinar. Venham para cá pra pegar e depois voltar ao abrigo para buscá-la. Hoje ela vai dormir em casa!”

Pois é, são 01:15 do dia 26/02/2010 e nossa filha Maria Eduarda está dormindo no berço dentro do meu quarto.

Há um ano e cinco meses ela nos esperava e nós esperávamos por ela...
Agora estamos juntos.

Agradecemos a todos vcs pela força, pelas orações e pelo apoio nas horas difíceis... Mas agora queremos celebrar a vida... junto com vocês!

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Ando Devagar

(meio perturbado)


Ando devagar

Cansado de vagar

Finalmente, a mente a divagar

Sobre as sombras, sobre sonhos e sementes

Pelos planos, pelos lisos e enrugados


Tem um tempo, um tecido tipo trama

Meio velho, meio novo, meio a meio

Que me envolve, me revolve e me dissolve

Me torna mais, me torna menos, mais ou menos


Sou do tipo que renova, se inova nova-mente

Sou instável, confortável, inesgotável

Sou destino, já sem tino, intangível

Sou daqueles, dos sem pele, que repelem o repelente


So' queria ser mais firme

Mais coluna, mais perene

So' queria ser da estirpe

De mais doçura, demais demente


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quarta-feira, 29 de abril de 2009

Nossos Caminhos...

Comentário que fiz sobre a crônica "Por onde anda" escrita por meu talentoso amigo Cesar Cruz.
Vale a pena conferir: 
http://oscausosdocruz.blogspot.com/2009/04/por-onde-andara.html


29/04/09


Pois é Cesinha, realmente tem gente que faz a diferença em nossas vidas...

São pessoas especiais, não somente pelo que fizeram ou pelo que são, mas principalmente pelo que significaram... daí a beleza da coisa! Se tornam uma referência na nossa caminhada, muitas vezes sem nem saber da importância que tiveram.

É gente que, com uma história, uma palavra, um gesto, ou um olhar nos ajudam a nos completarmos... a nos aperfeiçoarmos.

Com isso não afirmo que nos tornamos completos ou perfeitos a partir do relacionamento com o outro, mas que nos tornamos menos incompletos e menos imperfeitos por que temos quem, de alguma forma, nos inspire.

“Por onde andará” quem já andou comigo? A quem andará inspirando?

Vamos nos aproveitar enquanto caminhamos juntos.

Um abraço

do amigo

G

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Entre Sapos e Jacarés

Comentário que fiz sobre a crônica "Inacreditáveis Gentilezas" escrita por meu talentoso amigo Cesar Cruz.
Vale a pena conferir:
http://oscausosdocruz.blogspot.com/2009/04/inacreditaveis-gentilezas.html




23/04/2009


Oi Cesinha...


Há algum tempo atrás, olhando no espelho, vi que eu tenho cara de bobo. Imediatamente tomei uma decisão: Vai ser pra uso próprio! Não vou deixar que ninguém faça uso dela.


A partir desse dia, eu decidi que escolheria os sapos que engoliria... porque afinal, quando a gente decide ser gentil, a gente decide por engolir esses pequenos e jeitosos anfíbios.


Decidi também que engoliria até grandes jacarés (e tenho engolido alguns bem calibrosos) sempre que escolhesse engoli-los...


O problema é que o resto do mundo não sabia desta minha decisão e não colaborou nadica de nada com o meu dia-a-dia.


Confesso que algumas vezes só percebi que havia engolido o batráquio quando ele já se encontrava confortavelmente instalado em meu estômago. Porém houve vezes que cheguei a me engasgar com o tamanho do rabo do jacaré que tive que mandar goela abaixo...


Depois de quase vinte anos dessa decisão, ainda sinto o gosto de alguns desses que se tornaram meus companheiros de jornada.


Mas tenho que confessar... não me arrependo... mesmo daqueles que entraram forçadamente...


Prefiro ser assim, um engolidor de sapos e jacarés semi-profissional com o estômago cheio e pesado por causa desses anfíbios e répteis, mas com a consciência bem levinha, ao ponto de poder dormir bem tranquilamente a noite... ao som dos coachares.


Um abraço


do amigo


G


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terça-feira, 17 de março de 2009

RELIGIÃO

Brian McLaren

"Uma religião deve ser valorizada pelos benefícios que traz aos que não são seus adeptos."



(Muito "caradepaumente" chupinhado do blog do Villy http://villyfomin.blog.terra.com.br/.)

EQUILÍBRIO

Cecília Meireles

No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta.



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UM CEGO

Jorge Luis Borges

Não sei qual é a face que me mira
quando miro essa face que há no espelho;
e desconheço no reflexo o velho
que o escruta, com silente e exausta ira.
Lento na sombra, com a mão exploro
meus traços invisíveis. Um lampejo
me alcança. O seu cabelo, que entrevejo,
é todo cinza ou é ainda de ouro.
Repito que perdi unicamente
a superfície vã das simples coisas.
Meu consolo é de Milton e é valente,
porém penso nas letras e nas rosas.
Penso que se pudesse ver meu rosto
saberia quem sou neste sol-posto.



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SALVOS DA PERFEIÇÃO

Elienay Cabral Jr.  

Deus de tão perfeito conheceu a plenitude do tédio. De tão cercado pelo idêntico a si mesmo, incapaz de dizer por que hoje não é apenas um reflexo de ontem, sem jamais ter sonhado com um outro dia, enfadado com a previsibilidade de um mundo impecável, inventou o amor. Ou seria, preferiu amar?

A invenção do amor, ou dos amigos, é o encontro com o imperfeito e aqui está a sua grandeza. Nada se compara ao êxtase da imaginação, à adrenalina do inusitado, ao ciúme diante do livre amante, à ardência do anseio pelo melhor, ao sabor fugidio do fugaz, à satisfação de um mundo transformado, ao descanso gostosamente dolorido diante do que não mais é caos. Sensações próprias da vida imperfeita, do que está para sempre para ser, dos que sempre podem desejar uma outra coisa. Dos humanos.

Logo depois de inventar o imperfeito, Deus conheceu a lágrima da frustração. A dor mais feliz que espíritos livres sentem. Viu as costas dos que mais amou. Duvidou sem desistir, o Criador chorou mais uma vez. Desta lágrima descobriu o perdão. Lágrima esquentada com afeto e graça.

Mal compreendido pelos amigos, inimigos tolos, pecado, recobriram-no de ídolo. De tão cansados do incerto, angustiados por tanta liberdade, os amigos inventaram ídolos, pretensos profetas e arrogantes senhores do futuro, sacerdotes e magos de um deus acuado, cristos milagreiros da mesmice ressurreta. Inventaram a religião, vestiram-se de absoluto.

Deus, que do absoluto fugiu em desespero, que inventara o imperfeito, imperfeito se fez. Inventou-se entre os incertos. Aperfeiçoou a imperfeição. Humanizou-se entre humanos. De tão impreciso, despido das forças do absoluto, igualmente inapreensível, excepcionalmente frágil, tão vivo e tão morto, descortinou o absoluto como quem desnuda o que é mau. Imperfeito, salvou-nos da perfeição.


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